segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

OFF - A Flor do Meu Segredo

mesmo com toda a minha assumida admiração pelo Almodóvar (vê-se pela quantidade de posts que a ele fazem referência), ainda não vi todos os seus filmes, especialmente os mais antigos (antes de 1997, pelo menos).

assim, sempre que posso, pego emprestado do meu mecenas em brasólia (hahaha) alguns filmes e, no meio da última leva, eu trouxe, entre outros, o A Flor do Meu Segredo.

é um filme muito bonito e até delicado, que fala de amor e suas circunstâncias: amor correspondido, platônico, traição, amor cego, amor familiar... mas tudo isso com aquela pimenta já característica!

com diálogos rápidos e intensos, a película gira ao redor de Leo (Marisa Paredes), uma mulher apaixonada pelo marido (que não mora mais em Madrid, por conta da guerra), que se sente extremamente sozinha e atravessa um hiato criativo, impedindo-a de escrever as melosas histórias de amor estilo Julia/Sabrina/Bianca, que publica sob pseudônimo e que é sucesso de vendas.

a primeira cena do filme, na qual ela calça botas que o marido a havia dado, mas que ela não as consegue descalçar sozinha, além de ser de uma carência beirando o MADA, faz referência direta à musa Patty Diphusa, que, em uma das suas crônicas, passa por cena semelhante.

essa carência se vê em todo o desenrolar da história, onde a personagem rui "aos muitos" ("aos poucos" é para os fracos!), ensimesmando-se no seu próprio drama, que não julga capaz de carregar, e não enxerga o mundo ao redor, as outras possibilidades que lhe aparecem na vida.

ao discutir com o marido (que ela o acusava de usar a guerra na Bósnia como desculpa para não lidar com o casamento deles), ele finalmente desiste e joga a pá de cal em cima do relacionamento:
-- (...) pensei que você era especialista em conflitos!
-- sim, mas não há guerra que se compare a você!
e ela quebra. "dicunforça".

a mãe (a insana e maravilhosa Chus Lampreave!) a diagnostica como "uma vaca sem badalo" (perdida, sem rumo e sem orientação), e Leo, aos poucos (agora sim: pra descer é sempre mais rápido do que pra subir, né?), começa a sair do casulo e a viver.

menção honrosa para a trilha sonora, especialmente a minha surpresa (não é tão surpreendente, eu sei) ao reconhecer Caetano cantando Ay Amor (ou Dolor y Vida), nos créditos finais. essa música faz parte do Fina Estampa, e esse disco me é emblemático, por causa do meu pai, que o adora, e que já me fez ouvi-lo trocentas vezes.

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