terça-feira, 14 de janeiro de 2014

C02 - Azul é a Cor mais Quente

em 2013 fui ao cinema 30 vezes, e mais de 2/3 delas, sozinha (adoro ir ao cinema sozinha, sou dessas!)... 2014 já começou diferente (e melhor, especialmente pelo naipe das últimas companhias) :)

sobre o filme: a trama é interessante, mas achei o desenrolar da história arrastado demais! poderia ter uma hora a menos sem prejuízo algum do enredo....

claro que já vi filmes longos no cinema (cerca de 3 horas), mas esse não conseguiu me envolver o suficiente para que eu me esquecesse de que tenho bexiga e, acho que desde um filme dos Trapalhões no cinema, tive que sair para fazer xixi!

deixando as "pitoresquealidades" (lindíssimo neologismo, digno de mandar pro roletrando roda-a-roda, do Sílvio Santos) de lado, a trama conta a história de Adèle (justiça, em árabe -- aprendi no filme!), uma estudante do ensino médio bonita e um pouco perdida, às voltas com as suas relações (familiares, com os amigos, sexuais...), que se percebe apaixonada pela menina do cabelo azul (Lea), que só conhece de vista.

Adèle tem um medo quase doentio de fazer algo e se arrepender, como se estivesse sempre a postos para dar um Ctrl+Z -- mas a sua curiosidade é maior do que as suas próprias amarras, e ela resolve se jogar, pra ver qual é.

achei ótimo! go girl! mas o problema, ao meu ver, é que ela tinha tanto receio de que a relação acabasse, que não a vivia verdadeiramente -- tentava se moldar à companheira, gostando do que a outra gostava, e numa vida que não era a dela.

(pequeno adendo: não li o livro, as minhas impressões vêm das atuações e das situações retratadas.)

uma hora isso ia quebrar, óbvio -- mal dá pra se viver sendo fiel aos seus princípios e instintos, imagine a loucura que é ter que vestir uma roupa que não lhe cabe, todos os dias?

Adèle tentou, de todas as formas (especialmente as mais humilhantes), finalmente utilizar o seu tão amado Ctrl+Z, tentando alcançar o ponto de restauração antes de ela "escolher o lado errado da bifurcação".

saí do cinema comentando que ela era muito confusa, que procurava alguém que a dominasse, meio como se tivesse preguiça ou receio de pensar por si, de tomar as suas próprias decisões -- pra mim, que valorizo quase patologicamente a liberdade, é incompreensível e inaceitável! --, quando fui surpreendida pelo meu amigo:

-- Raquel, você não entendeu nada! Este filme é claramente um alerta contra o lesbianismo! -- falou bem sério, para cairmos na gargalhada em segundos.

como contra-argumentar? ;)

C01 - Álbum de Família

para abrir 2014 muito bem (cinematograficamente falando), me dei de presente a incrível Meryl Streep e grande elenco, em Álbum de Família.

não é um filme fácil, absolutamente!

também não foi muito fácil assisti-lo ao lado da minha mãe, especialmente porque o recorte da história gira ao redor de uma morte súbita, e tivemos uma experiência relativamente recente na minha família.

saindo do mundo das digressões, achei incrível o retrato da família falida, cheia de segredos, rancores e problemas, mostrado a nós sem pudores (e, aparentemente, sem maquiagem, dadas as rugas tão fortemente exploradas de cada personagem).

as três filhas (Julia Roberts, Julianne Nicholson e Julliet Lewis) fazem jus, interpretativamente, à mãe, e tornam o filme ainda mais avassalador!

mas o que acho mais digno de nota é reparar numa quebra que está ocorrendo no cinema americano, de uns tempos pra cá: parece que deixaram um pouco de lado a procura incessante e pouco verossímil pelo eterno final feliz!

antes era como moralizassem tudo, para, a cada película, mostrar o passo-a-passo para o sucesso (com produções quase de auto-ajuda)... o final acabava se tornando mais importante do que o meio!

se as únicas certezas de que temos são nascer e morrer, a arte está no caminhar entre esses dois pontos, não?

assistir a um filme que não se preocupa em ser bastião de moralidade é um deleite, e a inteligência de quem vai ao cinema agradece :)

OFF - Medianeras

há vários filmes que eu já devia ter visto e que acabo assistindo com um delay monstruoso, que serão classificados como "OFF".

é o caso deste filme, que eu já havia visto o "trelho" 357 vezes, e tanto a trilha, quanto a fotografia e a história me chamaram a atenção.

finalmente o vi, na sexta passada (dia 11), e, como não poderia deixar de ser, ele me ganhou já pelo prólogo!

as imagens cinzentas de Buenos Aires, com corte diferente, me deram ainda mais curiosidade para conhecer a Argentina!

e o melhor, me senti tão contemplada com o olhar do diretor/personagem, que sei que talvez tirasse as mesmíssimas fotos que ele tirou...

assim, quando ele pôs em palavras porque recorria às imagens para tentar fugir do seu claustro mental e físico de webdesigner/misantropo, terminei de me render:
tirar fotos: uma maneira de descobrir a cidade e as pessoas, e de procurar a beleza, mesmo onde ela não existe. (...) observar é estar e não estar, ou, talvez, estar de um jeito diferente.
admito que não pesquisei muito o filme após vê-lo, mas tenho a impressão de que o gatilho para juntar a crítica à era virtual e toda a solidão de ser uma multidão de perfis com a bela ausência de cores cheia de novos coloridos das grandes cidades foi a música "true love will find you in the end", linda e super atual sobre amor e outras relações.

não por acaso, quando a música começou a tocar, um miniflashback rodou na minha cabeça, e me vi no final de 2012, esperando o mundo acabar, e encontrando este easter egg no banco, enquanto eu me debatia se deveria, de fato, pagar contas, já que, em breve, não haveria mais SPC:



ou "seje", maktub. :)

L02 - Patty Diphusa, a Vênus dos Lavabos

adoro livros em 1ª pessoa! assim, além de encarar os fatos com um teor pessoal, ainda sabemos de tudo aquilo que não cabe nos gestos ou na voz dos personagens: as suas impressões, pensamentos, angústias e o melhor, a sua loucura!

por isso, como não amar um livro em 1ª pessoa, escrito pelo Almodóvar, antes de ele explodir como diretor/maluco?

Patty Diphusa, detentora da melhor alcunha ever (a Vênus dos Lavabos), é, com o perdão do trocadilho, alterado alter ego egoístico dele: é uma estrela (pornô), linda, absoluta, e tão cheia de vida que não dorme nunca!

nestas poucas páginas (ainda que fossem mil, não seriam demais!), a nossa "mocinha" conta as suas aventuras e desventuras em Madrid, com eventual participação da sua amiga Addy Posa (hauhuahauhauhuah), onde ela protagoniza várias situações que acabaram por aparecer em algumas películas do diretor (as crônicas começaram a ser escritas em 1981, houve uma pausa, e as últimas foram escritas na época em que estava sendo rodado Kika).

houve momentos, enquanto lia, que caí sonoramente na gargalhada -- o problema é que estava dentro do avião! ;)

um dos aforismos de que mais gostei foi a definição dela para marido: esse ser que preenche suas horas mortas e que a impede de sair numa noite de tempestade atrás de aventuras.

estupendo, cariño!

L01 - Fogo nas Entranhas

comecei 2014 pegando fogo -- será por isso que brasólia está neste calor infernal?

enfim, o 1º livro do ano é dele, Almodóvar, que admiro furiosamente pela habilidade em deixar a porta da insanidade mental sempre destrancada.

um amigo me emprestou Fogo nas Entranhas, já rindo, sabendo que não possibilidade de eu não gostar. apesar de ficar extremamente decepcionada por ter sido previsível, não havia a menor chance de eu não cair de amores.

aproveitei o meu voo Fortaleza-Guarulhos (a 1ª parte do meu pau de arara para voltar pra casa, não tá fá$$il pra ninguém) para me deleitar com a narrativa quebrada, mas característica dele.

antes de chegar em Sampa, eu já o tinha devorado, e já estava louca para passar para o seguinte (próximo post). fiquei tão doida que esqueci meu celular dentro do avião, tive que voltar (achei, ufa!) para a aeronave e pegar o transporte dos comissários/pilotos (não pude deixar de me lembrar de Los Amantes Pasajeros e o povo devia achar que eu era meio psicopata, por estar rindo daquele jeito).

voltando ao livro, conta-se a história do chinês Ming e das mulheres que passaram em sua vida (e o deixaram), em Madri. ele tinha uma fábrica de absorventes chamada "Chu Ming Ho", e tinha um interesse redundante por tudo o que dizia respeito a mulheres e ao seu trabalho.

ele explica que, após a revolução sexual dos anos 60, "as mulheres, especialmente, tinham começado a viver de forma mais intensa. o período de menstruação já não podia ser obstáculo para uma existência intrépida!"

baseando-se nisso e no provérbio chinês que diz que o demônio caminha em linha reta, e evitar as retas é uma forma de debochar dos demônios, construiu a sua fábrica quase como um labirinto, e a encheu de mulheres.

um belo dia, após ser abandonado mais uma vez, ele resolve se vingar dessas "ingratas" e a catinga de bacurinha queimada sobe!

não vou dar mais spoilers, apenas recomendo a leitura furiosamente, de preferência, em um lugar onde se possa rir com vontade!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

fiat lux

este blog é um exercício; há tempos quero registrar as coisas que vejo/leio/presencio e acho que um diário físico não resolveria essa demanda.

mas, ainda mais importante: não quero que os efeitos que cada obra dessas tenham sobre mim vivam meramente nas brumas da minha mente.

portanto, não me proponho a fazer resenhas, deixo-as para os críticos... a minha proposta é me entender e me achar (ou não) em cada experiência aqui descrita!

afinal, loucura é das poucas coisas que, quando a gente divide, ela aumenta!